Mulheres relatam como superaram a traição (às vezes, em série) de ex-companheiros

Assunto foi base para o livro ‘Can@lha.com’

Priscila Bentes: autora de Can@lha.com Foto: Arte de Silvana Mattievich
Priscila Bentes: autora de Can@lha.com Foto: Arte de Silvana Mattievich

Desde que o mundo é mundo, mulheres e homens de diferentes idades e classes sociais são passados para trás em relacionamentos amorosos em que acreditavam ser os mais importantes de suas vidas. Cada um reage de uma maneira. Existem mulheres que queimam roupas, destroem o carro do ex, xingam e choram sem parar. Mas há as que se redescobrem, renascem e enxergam-se melhor depois de passarem por experiências que causaram dor. Uma relação de quase dois anos vivida pela empresária Priscila Bentes, de 58 anos, resultou no livro “Can@lha.com”, que será lançado no dia 17, na Travessa de Ipanema.

Nas páginas, que misturam ficção e realidade, Priscila joga uma pá de cal nos sonhos de contos de fadas. Para evitar que outras mulheres caiam em ciladas parecidas, revela o modus operandi de um típico Casablanca do século XXI, especializado em encantar e depois abandonar mulheres mais velhas. Ela explica como Alex, nome fictício para um personagem real, identificava suas presas, estudava como conquistá-las e deixava-as dependentes. Oferecia sexo e atenção, para depois sumir.

Um sujeito, segundo ela, misógino e perverso. “Conheci-o num evento profissional ( em 2008 ). Era feio, gordo e careca. Trocamos cartões e dois dias depois ele estava na porta do meu escritório. Ao contrário dos canalhas que roubam ou batem, esse era um canalha que acabava emocionalmente com as mulheres. Ele me dava presentes caros e viagens, mas tinha 30 outras. Usava a internet para conhecer e conquistar.

Depois, por prazer, abandonava todas”, completa a empresária, idealizadora da plataforma digital Eu+Set, um coletivo formado por mulheres acima de 50, e criadora do Circuito Elegante, selo de qualidade no segmento do turismo que reúne hotéise restaurantes sofisticados em todo o Brasil.

O livro, como escreveu a jornalista Kika Gama Lobo na orelha, é um misto de desabafo com autoajuda; detox com vingança. Priscila, que está casada há dez anos, diz que pretende abrir os olhos sobretudo das mulheres que acham que nunca cairão nas armadilhas que ela própria caiu. A autora conta que não foi preciso investigar muito para descobrir que não era a única. De propósito, o traidor foi embora, deixando seu notebook aberto. “Acordei no meio da noite e li trocas de mensagens com dezenas de outras mulheres. Muitas delas estão no livro. Hoje sei que ele deixou propositalmente aberto porque não me aguentava mais. Quando a mulher ficava chata e o questionava sobre os sumiços, ele ia embora de vez.”

Isabel Dias dá palestras motivacionais para mulheres Foto: Arte de Silvana Mattievich
Isabel Dias dá palestras motivacionais para mulheres Foto: Arte de Silvana Mattievich

Drama parecido aconteceu com a escritora Isabel Dias, de 64 anos. Ela morava em Jundiaí, no interior de São Paulo, tinha três filhos, estabilidade financeira e uma vida pacata. De uma hora para outra, o chão se abriu sob os seus pés. Ela descobriu não uma, mas quatro amantes do marido com quem dividiu a cama e 32 anos de sua vida. O choque foi tão grande que Isabel não quis apenas o divórcio. Quis virar outra pessoa. Largou para trás a casa, a cidade pequena e a vida que levava. Mudou-se para São Paulo. Da dor e da decepção, nasceu uma outra mulher: mais liberta, mais corajosa e mais forte. Isabel decidiu que sairia com a quantidade de homens proporcional ao número de anos em que esteve casada com o príncipe que virou sapo. Assim como Priscila, sua experiência virou livro. Em 2015, ela lançou “32 — Um homem para cada ano que passei com você” (ed. Livros de Safra). “Não aceitei que eu estava velha demais para aproveitar a vida. Não há idade para se reinventar e ser feliz. No começo, foi por vingança. Depois, percebi que era por mim mesma. Lavei a alma e vi que o sol podia continuar a brilhar”,

O livro é erótico, mas também libertador. Hoje, ela tem dado palestras motivacionais para grupos de terceira idade, formados principalmente por mulheres. Isabel acaba de negociar os direitos de seu livro com uma produtora de cinema brasileira.

Para a artista gráfica Silvana Mattievich, de 48, autora da arte sobre as fotos que ilustram esta reportagem, autoestima é a base de tudo. Depois de um relacionamento de quase um ano, ela, em 2014, desmascarou um namorador em série que se relacionava com outras três mulheres ao mesmo tempo.

Ele conseguiu mantê-las isoladas até certo ponto. O Facebook fez Silvana descobrir tudo. Ela lembra que não enxergou, em nenhum momento, as outras como adversárias. As quatro ficaram amigas e conseguiram se apoiar. “Com certeza, o que passei com ele me ajudou a identificar o perfil de um homem abusador. Mas a responsabilidade sobre o que acontece em nossas vidas é 100% nossa. Não devemos culpar ninguém, porque tudo é resultado de nossas escolhas”, afirma. Silvana estuda cabala e física quântica, conhecimentos que, segundo ela, foram transformadores em sua vida. “Enquanto a gente não se valoriza e não olha para si antes de tudo, continuamos pisando na bola e errando. Ao tomar consciência e valorizar quem somos, resgatando a nossa autoestima, nos tornamos pessoas melhores, mais interessantes, mais produtivas, com mais valor.”

O advogado A. C. conta que levou, durante um ano, uma relação com duas mulheres: uma namorada de cinco anos no Rio e outra em Vitória, no Espírito Santo, cidade para onde foi transferido pela empresa em que trabalha. Ele diz que não se orgulha do feito: “Durante algum tempo, toquei a situação, mas porque realmente me apaixonei pelas duas. Queria que tivessem aparecido na minha vida uma de cada vez, mas aconteceu assim. Sei que não fui honesto, mas não consegui escolher com qual queria ficar.A namorada de Vitória acabou terminando sem saber de nada.”

O psicanalista Alexandre Pedro, da Sociedade Internacional de Psicanálise de São Paulo, diz que a traição pode e deve ser encarada como um recomeço. “Vivências acompanhadas de sofrimento também resultam em amadurecimento. O mais importante é absorver e saber digerir essa frustração, não escondendo de si mesma seus sentimentos”, diz Alexandre. “Essa dor precisa ser vivida para que possa ser cicatrizada, dando lugar a um novo ciclo. É preciso chorar e fazer uma reflexão sobre tudo o que aconteceu. Isso é fundamental para o autoconhecimento e para a construção de novos valores. Essa autoanálise ajuda as mulheres a se livrarem de padrões tóxicos de comportamento.”

De todo modo, se você estiver sozinha no Dia dos Namorados, não custa lembrar: antes só do que mal acompanhada.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Fechar